Tchilóli

A Tragédia do Marqês de Mântua

O Tchilóli de S. Tomé, a tragédia do Marqês de Mântua, inspirada num texto de Baltazar Dias, constitui um exemplo ímpar de aculturação. Todavia sendo um espectáculo com ritual próprio que não nega uma carga mágica e telúrica, a presença africana consegue sobrepor-se à temática de origem lusitana. Surge-nos assim “um dos mais completos e complexos processos de de aculturação euro-africana”, transformada pela pena de Baltazar Dias e pelo esforço dos colonos que a divulgaram, num fenómeno de mestiçagem cultural afro-portuguesa.

É de convicção de Tomás Ribas que este texto tenha sido levado para S. Tomé por colonos madeirenses que foram para a ilha por ocasião das plantações da cana de açúcar.

A morte do filho do Marqês de Mântua, Valdevinos, é o centro deste drama. Assassinado por Carloto, descendente do Imperador Carlos Magno. Numa espécie de tribunal presidido pelo Imperador e Imperatriz, comparecem a familia do Marqês de Mântua, os conselheiros e os homens grados a este.

No Tchilóli a componente africana é sublinhada pela coreografia, pela indumentária, pelo tipo de danças, pelo acompanhamento musical e pela mímica que por vezes se transforma em pantomina. A monotonia do acompanhamento musical é sublinhada por frequentes avanços e recuos em passos curtos, efectuados sem pressas prolongando a representação e adensando a tragédia até um “climax de grande extinção”. O ritmo não só sublinha a interpretação africana, como permite uma envolvência que se torna característica.

Fernando de Macedo, 1999.

Estas fotografias são do Grupo de Tragédia de Cachoeira, S. Tomé.

S. Tomé e Príncipe, Septembro de 1999